terça-feira, 29 de setembro de 2015

Deus e o Design Inteligente

A assertiva de que a vida e, em geral, o cosmo, foram planejados por um agente inteligente, pode confundir a mente do homem contemporâneo, educado desde a infância na crença de que tudo é o simples resultado de leis naturais, quanto mais se levarmos em conta que o desenvolvimento da ciência nas últimas décadas avançou consideravelmente nesta direção. Tal qual na Idade Média, quando as pessoas tiveram que se acostumar com a ideia de que a Terra girava em redor do Sol, não obstante a total ignorância acerca dos movimentos de rotação e translação, assim também se dará no século XXI em relação ao conceito de Design Inteligente ligado à vida e ao Universo.

Algo distinto dar-se com a natureza do Planejador. Aqui não existe consenso. Diante da pergunta: “qual divindade é mais compatível com o Design Inteligente?” (Tedeísmo), há de se responder que NENHUMA. Por sua própria essência de lidar com dados empíricos, essa Teoria não especula acerca dos atributos do Planejador. Em vez disso, ela apenas busca encontrar indícios de um “plano” (ou design) na Natureza, em que se inclui a própria vida.

Aos que acreditam no Deus da Bíblia, parece simples associá-lo com a ideia de um Planejador Inteligente. Contudo, para aquém da concepção religiosa judaico-cristã, encontramos muitos outros conceitos acerca deste intrincado assunto. Por exemplo, há aqueles que sustentam que a vida e o que a ela se relaciona tem sua origem em seres extraterrestres (ou alienígenas); alguns defendem a existência de um enigmático princípio auto-organizador no Universo; outros argumentam que os seres vivos são inteligentes por si mesmos, entendendo que a biosfera como um todo (Gaia, a deusa Terra) atuou com sua própria inteligência num único organismo etc. Todas essas possibilidades podem estar relacionadas entre si. Seja como for, o certo é que a ciência não tem a última palavra sobre a questão, cabendo a ela ceder às explicações da Teologia ou às especulações da Filosofia.

Um dos famosos descobridores da estrutura do DNA, o doutor Francis Crick, propôs sua conhecida teoria da panspermia. Em sua opinião, a vida havia sido semeada na Terra por obra de alguma civilização inteligente oriunda do espaço exterior. Embora tal enunciado não resolva o problema da origem da referida e hipotética civilização, ainda assim assume parte das premissas fundamentais do Tedeísmo. Isto é, que a vida exibe um “design” ainda que este não se mostre perfeito.

Crick abre assim a porta para a possibilidade de planejadores inteligentes, porém sujeitos a falhas e erros. Alienígenas do espaço que não necessitam ser moralmente superiores aos homens. Exportadores de uma sofisticada tecnologia que respondam às motivações altruístas ou até mesmo egoístas. Ninguém sabe. Em poucas palavras, a panspermia substitui o conceito de um Deus uno por múltiplos deuses menores, os quais podem equivocar-se, uma vez que as coisas não se sucedem conforme planejam.

Esta ideia de panspermia está firmada sobre areia movediça. Carece de evidência científica e apela para algo que não é suscetível de investigação: uns seres inteligentes que surgiram há muito tempo numa galáxia desconhecida e muito distante. A hipótese se converte, pois, num verdadeiro milagre. É como se Crick estivesse afirmando que “a origem da vida na Terra foi um estrondoso milagre”. A questão, porém, extrapola completamente a esfera da ciência. Ao fim de tudo, seria o equivalente a afirmativa religiosa do milagre bíblico da criação.

No entanto, se não foram os extraterrestres, que outro Planejador se enquadraria na Teoria Tedeísta?

Pelo fato de o Tedeísmo nada dizer acerca da natureza (ou atributo) do Planejador, muitos criacionistas, e a maioria dos evolucionistas cristãos, vê com maus olhos o tipo de Deus que se apresenta. Uns porque creem que ele não se identifica com o Criador relatado no Gênesis; outros por acreditar que o Planejador Inteligente nada mais seria do que o tal “deus da lacuna”.

Alguns adeptos do Criacionismo da Terra Jovem, não todos obviamente, criticam o Tedeísmo por este não interpretar literalmente o livro de Gênesis e, portanto, de não acatar com as Escrituras e nada dizer acerca do Deus bíblico, recusando a dar-lhe a glória merecida. Para estes, o Tedeísmo não é o “Criacionismo camuflado” como acreditam muitos darwinistas, mas sim uma espécie de “gaveta de alfaiate” onde cabem todas as concepções de divindade. Por sua vez, alguns teólogos defensores do Evolucionismo Teísta recusam aceitar o Tedeísmo como uma premissa científica pelo fato de verem inserido nele o que denominam de “o deus da lacuna”. Ou seja, acreditam que os proponentes do Tedeísmo apenas veem “design” na natureza em áreas as quais a ciência ainda não penetrou profundamente. Uma ideia perigosa, dizem, pois à medida que o conhecimento científico avança, Deus retrocede. É como se a crença em Deus tivesse como única causa a ignorância humana. Mas, o que há de verdadeiro em tudo isso?

Faz-se necessário ressaltar, porém, que nem todos os criacionistas da “Terra Jovem” e menos ainda os da “Terra Antiga” discordam dos pontos de vista do Tedeísmo. Muitos deles reconhecem que nem sempre a Bíblia deve ser interpretada literalmente e apoia o Design Inteligente como um acontecimento fundamental na Natureza. Convém lembrar, mais uma vez, que a TDI, como toda teoria empírica, não pode dizer absolutamente nada acerca de um Planejador que não pode ser testado, mas apenas que atuou de forma inteligente deixando os sinais de inteligência entre os seres vivos, na Natureza.

Quanto ao argumento do “deus da lacuna”, com o qual os cristãos evolucionistas atacam o Tedeísmo, parece demasiadamente equivocado. Não é que os pesquisadores tedeístas vejam “design inteligente” em determinadas estruturas irredutivelmente complexas porque estas têm sido pouco estudadas e por serem praticamente desconhecidas pela ciência. É exatamente o contrário. O que motiva os cientistas a ponderar acerca de um agente inteligente é o grande conhecimento que possuem acerca destas tais estruturas e pelas descobertas que lograram neste âmbito. Em síntese: não é o que não sabem, mas o que sabem.

Darwin e seus contemporâneos, ao observar uma célula com seus microscópios rudimentares, não podiam conceber um design real nesta mesma célula, uma vez que viam simples esferas de gelatina rodeada de um pequeno núcleo obscuro. Nada além. Contudo, é precisamente o elevado grau de informação e sofisticação bioquímica das estruturas celulares, descoberto pelos potentíssimos microscópios eletrônicos atuais, que tornou factível e possível a Teoria do Design Inteligente. Não se está aqui apelando ao “deus da lacuna”. O que se afirma com isso é que a ação inteligente de um agente inteligente pode ser detectada da mesma maneira como faz um programador que manipula informações e cria um software com finalidades específicas. Os sistemas biológicos manifestam os sinais distintivos dos sistemas desenhados inteligentemente. Possuem características que, em qualquer outra área da experiência humana, ativaram o reconhecimento de uma causa inteligente. Segundo o Tedeísmo, os seres vivos, muito mais do que fruto do caso, é resultado de decisões sabiamente precisas.

Finalizo, pois, com uma questão que me parece relevante. Muitos creem que o design na natureza, para ser legítimo, deveria ser igualmente perfeito, benéfico ou, quanto menos, inofensivo. Porém, a realidade é que as coisas nem sempre se sucedem assim. O cosmo em que vivemos atualmente é limitado, finito, mutável e submetido à lei física da entropia. Se não se aplica energia extra, o grau de desordem em vez de diminuir, só aumenta. Por fim, aos seres vivos sobrevém a morte. Portanto, resulta bastante improvável que o design real supere todos os inconvenientes ou satisfaça todos os gostos, bem como as necessidades de um mundo nessas condições.

Parece um equívoco a afirmação de que: “o design para ser design tem de ser perfeito”. Ora, porventura existem designs imperfeitos?

Uns dos organismos que fazia com que Darwin duvidasse da existência de um Deus bondoso eram as vespas, mais especificamente as pequenas vespas do grupo dos icneumônidos (Ichneumon ), que tem o hábito de botar seus ovos dentro dos corpos vivos de lagartas e outros insetos. Desta forma, quando as larvas dos Ichneumon as vespas tem à sua disposição alimento fresco: o corpo de seus desafortunados hospedeiros, as lagartas, que são deglutidas vivas.

William Dembski, um dos principais proponentes do Tedeísmo escreveu: “A natureza é um emaranhado complexo. Não é o mundo feliz de William Paley, em que reina a harmonia e o equilíbrio. Não é também o mundo darwinista, caracterizado por uma natureza vermelha de sangue nos dentes e nas garras. A Natureza contém desenho maligno, desenho mal construído e desenhos esquisitos. A ciência deve começar a aceitar o desenho como tal e não depreciá-lo” (Dembski, W. No Free Lunch, Rowman y Littlefield, Lanham, 2002, p. 16.).

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Tradução: Iba Mendes

* Traduzido livremente de: “Dios y el Diseño Inteligente”, de Antonio Cruz Suarez, disponível em: www.darwinodi.com

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